sábado, 23 de junho de 2012

CATOLICISMO POPULAR: A DEVOÇÃO AOS SANTOS JUNINOS


                                                                                                
*Maria Elizabeth Melo da Fonseca
*Maria José Torres Holmes                                                                                                            
A religiosidade popular é um tema de estudo bastante discutido por especialistas da área, considerando-a enquanto manifestação do sagrado e da memória coletiva. Não há correspondência entre suas manifestações e o arcabouço doutrinário do catolicismo oficial, manifestando-se através da participação intensa dos devotos e suas práticas peculiares.
O catolicismo popular teve suas origens em Portugal, pois seu território era geograficamente aberto, proporcionando comunicação com outras etnias e, em especial, o cruzamento de diferentes práticas religiosas de várias vertentes, entre as quais se destacam o catolicismo, o islamismo e as práticas fetichistas africanas, sendo essas permeadas de rituais de feitiçarias e superstições. 
Em alguns países como França, Irlanda e países nórdicos do Leste europeu, as festas de São João são celebradas entre católicos, protestantes e ortodoxos. Em Portugal, porém, elas são conhecidas como Festas dos Santos Populares e tem seus feriados municipais de acordo com cada local. Nelas são comemorados os Santos Antônio em 13 de junho, João em 24 de junho, Pedro em 29 de junho e outros. Antes essas comemorações se chamavam juninas, derivadas do nascimento de São João, passando a serem chamadas de juninas, pois são deflagradas no mês de junho.
A festa junina no Brasil foi trazida de Portugal. Comemorava-se, nesse país, a chegada do verão após um longo inverno de infertilidade da terra. Além de Portugal, outros países europeus de tradição romano-cristã deram suas contribuições por meio de imigrantes que aqui chegaram por volta do século XIX, porém, foram os portugueses que a introduziram por primeiro entre os indígenas e africanos.
 
Festas Juninas: o lado profano da devoção aos santos

As Festas Juninas, apesar de ser uma comemoração aos Santos da Igreja Católica, são celebrações profanas que estão historicamente relacionadas com as festas pagãs. Elas são comemoradas no Brasil, principalmente na atual região Nordeste. Suas devoções estão relacionadas ao Santo Antônio, São João e São Pedro.
Essas festas consideradas típicas se radicalizaram na região do Nordeste, e por ser uma região árida que favoreceu a lavoura para plantação e colheita do milho, desenvolveu-se uma riqueza culinária nordestina com as comidas derivados do milho, tais como bolos, canjica, mungunzá, pamonha, o milho assado e cozido. Além dessas comidas, temos, também, o arroz doce, cocadas, pipoca e bebidas que fazem parte da tradição culinária local.
Geralmente os festejos juninos são realizados no arraial, isto é, local ao ar livre comumente enfeitado com bandeirinhas de papel coloridos, folhas de palmeiras e coqueiros. O arraial fica cercado de barracas com as comidas típicas.
Por ser considerada uma “festa matuta”, ou seja, advindas da comemoração da colheita do milho, da roça, as pessoas costumam vestir-se de trajes tipicamente próprios para ocasião. As mulheres usam vestidos de chita com saias rodadas e muitos babados de rendas e fitas coloridas. Os homens usam calças com remendos coloridos, camisas estampadas ou xadrez, gravatas ou lenço no pescoço e chapéus de palha ou couro, apresentando-se, dessa forma, para as diversas danças.
Os festejos juninos concorrem também para dar impulso à economia local, como ocorre na cidade de Caruaru - PE e de Campina Grande – PB, através do turismo. Estas estão sempre em disputa pelo título de “Maior São João do Mundo” ou “ Melhor São João do Mundo”. Enquanto isso, Caruaru está consolidada no Guinness Book na categoria da maior Festa Country regional. Ambas cidades oferecem o forró pé-de-serra para se dançar o tradicional rela-bucho, executado ao som de instrumentos musicais característicos, a exemplo da zabumba, sanfona e o triângulo.

Origem da fogueira
De origem européia, a fogueira é tradição do conhecido São João brasileiro. As fogueiras juninas fazem parte de uma antiga tradição pagã. Na Finlândia, a maioria da população procura passar o São João ("Juhannus")  no campo, em lugares afastados da cidade, onde as fogueiras de São João são bastantes populares.  
Uma lenda católica tenta explicar o costume de se acender fogueiras no início do verão europeu. Conta-se que tal tradição provém de um acordo feito pelas primas Maria e Isabel. Para avisar a Maria sobre o nascimento de João Batista e ter seu auxílio após o parto, Isabel teria de acender uma fogueira sobre um monte. A tradição religiosa evidenciou a profanação, porque ao redor da fogueira são praticadas danças e adivinhações para as moças solteiras com pretensões de se casarem.

O uso de balões
Outra tradição é o uso do balão e fogos diversos.  Muito embora seja tradição o uso do balão, hodiernamente sua  prática é proibida por Lei, tendo em vista os perigos de incêndios e outros danos que podem vir a causarem. Tratava-se de uma tradição a soltura do balão para indicar que a festa iria começar. Geralmente se soltavam cinco a sete balões.
Entre estas tradições, os fogos de artifícios são bastante consumidos por seus espetáculos pirotécnicos, constituindo parte essencial desses festejos. Durante todo o mês de junho é comum, principalmente entre as crianças, a utilização dos fogos de artifícios que enquadram os traques, estrelinhas, cobrinhas, chuveiros, rojões, buscapés etc. A tradição popular dita o uso desses adereços que servem para despertar “São João Batista”.

As danças típicas
As danças típicas tornam-se a melhor parte das comemorações juninas. A quadrilha brasileira surgiu através do nome de uma dança de salão francesa executada por quatro pares, a "quadrille", que acontecia no início do século XIX . Era uma dança aristocrática. Hoje, com passos renovados e um rítimo frenético, as quadrilhas formaram grupos para a diversão ou apresentação em competições em várias cidades do Nordeste.
Além da quadrilha, outras danças são compartilhadas, tais como o xaxado, baião e o forró pé-de serra. Sendo essa última imensamente desfrutada e considerada como dança típica do sertão nordestino,  prestigiada o ano inteiro. 


 Pesquisa de:
* Maria Elizabeth Melo da Fonseca - Graduada em História pela UFPB. Especialista em História, Meio Ambiente e Turismo pela UNIPE. Professora da rede pública de ensino do município de João Pessoa e do Estado da Paraíba. Mestre do Programa de Pós-graduação em Ciências das Religiões – UFPB.

* Pedagoga, Coordenadora do Ensino Religioso e polo VIII da Secretaria Municipal de João Pessoa, Especialista e Mestre em Ciências das Religiões pela UFPB. Professora de Ensino Religioso aposentada pelo Estado da Paraíba.

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